quarta-feira, 12 de outubro de 2011

Veludo


Acordei com vontade de escrever um poema que ninguém fosse ler.
Assim, solitário, feito eu e você, como aquele que um dia me escreveu.
Pego um giz e anoto no espaço: “Eu tenho algo pra dizer.”
Mas se aquiete, sossegue,
Ainda não resolvi direito, inda tenho um desassossego que assusta.
A ausência está em todo lugar, você sabe.
E eu não seria tão feliz, agora, em lugar nenhum.

Eu queria escrever um poema que ninguém fosse ler
Nem eu nem você nem ninguém
Eu queria que o poema brotasse da minha garganta e fosse escorregando em silêncio
Em formato de toque, beijo ou veludo.

Eu sempre tento que os poemas vazem em silêncio.
E eu queria escrever um poema que falasse sobre as coisas que eu escrevo quando estou tocando ou beijando ou apenas
Em silêncio. Para que ninguém entenda.
Entende?

Eu vou deixando esses espaços, criando essas estrofes tolas
Para que preencha com o que quiser
Mesmo que o querer seja nada.

Estou com vontade de escrever um poema que ninguém pudesse ler.
Que pedisse algum feitiço-senha para que pudesse ser lido.
Sobre as coisas que foram rápido demais porque deveriam ter sido há muito tempo.
Um poema com todas as coisas que foram hoje
Com todas as coisas que ainda serão
Com todas as coisas que não foram, mas deveriam ter sido
Com as que deverão ser, mas não serão
Com as que serão quando deverão ser
E com as que serão mesmo quando não deverem.

sábado, 8 de outubro de 2011

Le Rouge


Estamos no campo. É outono e um carro de som anuncia pelas ruas da cidade a chegada do cinema itinerante. O burburinho logo se espalha por toda a região – que nunca havia recebido a visita do cinema, e muito menos possuía um fixo – deixando a população em estado de ansiedade. Seria na noite seguinte, era sábado.
A menina ouvira a notícia enquanto sentava na porta de casa, os pés estirados na calçada, como fazia todos os fins de tarde para escutar os sons vindos da rua e sentir os aromas das sacolas que as senhoras traziam da feira antes da noite cair – as frutas, vez ou outra um cheiro de pastéis e sempre o frescor das verduras. Do alto dos seus jovens oito anos, ela não podia enxergar. Por isso, apegava-se a tudo que seus outros quatro sentidos pudessem lhe proporcionar, almejava os detalhes, todos os pormenores que seus ouvidos, mãos, nariz e boca pudessem lhe dar.
Assim que ouviu o anúncio no carro de som, foi chamar o irmão mais velho. Gostaria que ele a levasse para o cinema na noite seguinte. Seria domingo e havia uma melancolia nas noites de domingo – melancolia esta que não haveria amanhã se ele o levasse ao cinema. Ele considerou por um momento, enquanto ela lhe pedia, o fato de que sua irmã era cega. Hesitou. Cedeu. Havia algo de especial em sua irmã querer ir ao cinema e mesmo assim, seria uma nova experiência para ele mesmo. Nunca havia ido ao cinema.
A noite seguinte chegou. Ambos foram, sozinhos, o irmão guiando a menina com seus braços dados, caminhando pela rua principal, que levava a um grande terreno de terra batida aonde o cinema itinerante havia se instalado. Chegando lá, havia fila, o que já era esperado. Os dois encaminharam-se para o final da linha enquanto aguardavam. A menina passou a observar com os sentidos outra vez, sentiu cheiro de pipoca, tateou sem querer uma placa (seria onde estaria escrito o nome do filme? Ou talvez o nome do cinema?), ouviu algum barulho distinto.
“O que é?”, perguntou ao irmão.
“O que é o quê?”, disse ele.
“Esse barulho, na nossa frente, não consigo... identificar.”
“Shhh! Fale baixinho! É um casal.”, sussurrou ele.
Os dois continuaram a aguardar na fila, enquanto a menina prestava atenção aos detalhes dos sons do casal na frente, imaginando como seriam seus rostos, como seriam suas roupas e o que estariam fazendo. Aguardaram por cerca de vinte minutos, até que puderam entrar e sentar-se na fileira do meio. O filme estava começando e a menina percebera porque sentiu o calor da luz da grande tela refletindo em seu rosto levemente. Ela pedira que seu irmão descrevesse aspectos visuais do filme, para que pudesse entender a história não só com o que escutava. Ele descrevia as cenas, passadas dentro de um grande sobrado, relatando os cômodos, um detalhe ou outro.
Até que houve uma cena na cozinha da casa, em que a personagem escutava uma música que a menina reconheceu ser um pouco antiga – década de setenta, talvez.
“Ela está dançando na cozinha”, disse o irmão. “Com uma caneca vermelha nas mãos.” A menina construiu a imagem em sua cabeça: a cozinha, a personagem – o irmão dizia que era feia, muito alta, com o nariz protuberante, por volta dos 30 anos – dançando aquela música antiga (a menina a havia escutado algumas vezes) e, no entanto, teve uma pequena pausa em seus pensamentos ao chegar na caneca. Vermelha. Mas a menina não sabia o que era vermelho, não sabia como eram as cores, estas não podiam ser captadas com o toque, olfato, paladar ou audição. As cores eram o seu mistério, o enigma do vermelho. E todo o tempo que se seguiu durante o filme, ela tentava imaginar como seria se ela visse cores, em tudo tentava botar cor, nos olhos, nos móveis, nas vozes – porque ela não sabia se as vozes também possuíam cor. E então ela passou a buscar cores em tudo, após o cinema, ao sentar na calçada nos fins de tarde, nos cheiros das sacolas trazidas da feira, nas roupas dos casais se beijando na fila do cinema, nos filmes, na cidade, nela mesma.

sábado, 24 de setembro de 2011

"A poem is a petition, a petition is a poem..."


Pra quê ideologia sem amor
Se todo o meu torpor agora é dor
E a minha verdade agora é parte
De uma guerra que eu perdi
Se todo amor que eu nunca dei
Agora é dado por outro alguém
Nesta terra de ninguém
Só nos resta o que sobrou

(Escrito em outubro de 2009).

sexta-feira, 23 de setembro de 2011

Sobre Uma Flor


Hoje é dia 23 de setembro.
Hoje é dia 23 de setembro e eu olhei pela porta aberta da sala as palmeiras, de longe iluminadas, como um viciado em heroína olha para as árvores que rodeiam a sua clínica de reabilitação. E de fato acabei parando em uma.
Hoje o meu único sentimento por alguém que um dia eu guardei uma dose de “amor” – eca, como pude? é tão difícil dizer essa palavra agora - é nojo. É a minha bile se debatendo no fundo do meu estômago, quase chegando a minha garganta com o desejo de cuspir toda a sopa mal-feita que se come em uma clínica. É uma feroz vontade de cortar todo o corpo em pequenos e perfeitamente alinhados pedaços de carne de 1 cm. Em cubinhos, como os temperos de cozinha. Como um perfeito e asseado serial killer.
E é por esse tipo de desejo que eu não me surpreendo por estar aqui hoje.
Hoje é dia 23 de setembro e eu matei uma formiga para aliviá-la do sofrimento de estar caminhando machucada.
Hoje uma flor brotou no deserto e eu também a matei.
Hoje, e mais especificamente agora, alguém perto do lugar onde estou – a minha clínica de reabilitação imaginária – está ouvindo I Miss You e penso que isso é absurdamente irônico.
Hoje eu arranquei do meu dedo uma lembrança (que tem formato de dois corações grudados - e essa imagem é tão absurdamente sádica, Deus! – aliás Deus, se é que você existe mesmo, desculpe-me por usar seu nome em vão, mas sou assim mesmo).
Hoje eu quis dizer to mommy (sim, “to mommy” assim como um bebê no escuro clamando por leite, e pouco me importa o que vão pensar) que esteve certa na maioria das vezes e que eu sou terrivelmente estúpida (afinal, isso aqui não é mesmo uma clínica de reabilitação? pessoas emocionalmente inteligentes não vão à reabilitação).
Hoje, como nunca, eu entendi Holden Caufield: “As pessoas sempre pensam que algo é inteiramente verdade. As pessoas nunca notam nada. As pessoas nunca acreditam em você. As pessoas sempre aplaudem as coisas erradas. As pessoas nunca dão as suas mensagens para ninguém.”
Hoje eu expliquei coisas pensando em como eu tinha arrancado aquela flor do deserto; tentei fazer poemas, mas estava seca porque matei a flor; verti um bom tanto de lágrimas em uma blusa azul porque eu matei aquela única flor no deserto; respondi questões inúteis com respostas inúteis para receber uma avaliação inútil sem prestar atenção no que escrevia porque só pensava na flor; eu não paro de pensar que eu deveria ter o mesmo destino que ela para que a justiça fosse feita; eu a matei para só depois descobrir que a flor no meio do deserto – quase um oásis de ternura em meio àqueles montes de cactos secos e mentirosos - era a única flor que havia conseguido brotar em todos os desertos do mundo e que ela havia decidido brotar justo ali, no meu deserto. Eu a matara e o deserto é agora apenas areia – fria, porque é madrugada – e eu – presa aqui, nessa clínica de reabilitação para gente viciada em errar – desejando que aquela flor volte a brotar, assim, em segredo, como fora desde o começo, se recompondo meio molenga, se firmando outra vez, porque – ai, isso dói mesmo, isso dói muito, eu deveria ter dito o quanto eu amava aquela flor logo quando a encontrei há um tempo e a achei esplêndida, nada disso teria acontecido, absolutamente nada; como o Pequeno Príncipe, eu colocaria uma redoma para que a flor não sentisse frio nem fosse atacada por animais, eu cuidaria dela como se ela também me amasse e nós poderíamos ter sido – como é mesmo a palavra? ah, sim – felizes.
Hoje é 23 de setembro e eu descreio tanto nessa palavra - “felizes” – que acredito que preciso soletrá-la em voz alta para que eu possa lembrar o seu significado. Ah, sim.
F – E – L – I – Z – E – S.
É assim, não é?
É, talvez seja assim.
Eu não sei porque eu matei a flor.
E agora eu fico com esse gosto na boca, de nojo do outro, de nojo de mim, de saudades, de tristeza, de bile, de sopa mal-feita, de palmeira iluminada ao longe, de clínica, de coisa dolorida dolorida dolorida, de arrependimento, um gosto de vontade imensa imensa imensa de ressuscitar a flor e cuidar dela dessa vez. Um gosto assim, de flor. Branca. Que brotou no deserto.

terça-feira, 6 de setembro de 2011

O Último Oceano


As pessoas estão falando em “antes” e “agora”. Eu mesma falo em “antes” (it hurts a little or maybe a lot) e “agora”. O antes era assim: tinha gente, e essa gente encantava quando abria a boca para cantar e dizer; tinha gente, e gente que se amava muito ali no meio, amor mesmo, desses que doem e formam casais; tinha gente, e essa gente sentia-se muito honrada; tinha gente, e eles sorriam (ai, como eles costumavam sorrir para cantar, mesmo com as cordas vocais meios gastas – ai, como eles sorriam).
O que me entristece no antes não é exatamente o que poderia ter sido e não foi. O que me entristece no antes são todas as coisas que poderiam ter sido e foram. As escadas atrás das luzes, as coisas sussurradas (bem ali atrás, onde ninguém vê), quando o suor vibrava, quando amar era êxtase e não lágrimas que uma ou duas garotas escondem no banheiro e enxugam no casaco vermelho, quando você costumava gostar de mim, quando todos nós costumávamos gostar (gostar mesmo, entende? aquela sensação de que está tudo se abrindo, exposto e dane-se – isso não é nenhum problema), quando era tudo tão nítido, quando era tudo tão claro (sabe, nós éramos, apesar de tudo, felizes e nem sabíamos).
O agora somos nós remando contra a maré. O saldo é esse: dois corações partidos, duas partes inteiras partindo, um bando de palavras ácidas escapando por aqui ou por ali (mas não vamos falar de coisas ácidas, porque as pessoas ácidas andam me pesando demais nessa memória e nesse íntimo cheio de cacos), uma ou duas flores brotando bem ali no canto (ninguém sabe, ninguém viu), estagnação, estagnação, estagnação (me desculpem, isso foi uma lágrima que escorreu), e essa vontade insana – um anseio quase maníaco – por um pouquinho de graça, por uma pontinha escassa de amor (dessa vez por si próprio, só porque amar a si mesmo é mesmo muito mais fácil), por um pequeno oásis onde ainda não se fez deserto, mas também não se é mais oceano.
Perdoem-me por ser um tanto quanto comum agora (e sempre): que o “amanhã” nos deixe ser capaz de sorrir. Tal qual o “antes”, embora diferente. Sempre diferente.

quarta-feira, 31 de agosto de 2011

As Coisas Minhas Que São Sobre Você


Seco as minhas frustrações com dedos que não são meus. E fico pensando no que me disseram, no que você me disse e até mesmo outras pessoas, e também eu fico dizendo coisas a mim mesma. Eu costumava fazer isso em silêncio antes, mas então eu sucumbi ao impulso de dizer.
E eu estou dizendo.
Estou dizendo que você me deu tempo para pensar e que mesmo assim só levei 30 segundos do dia 30 do mês 3 para te responder porque eu não tinha mesmo grandes dúvidas, estou dizendo que antes eu entristecia nas janelas de ônibus pelas pessoas das poltronas da frente mas que naquele dia, naquele ônibus, (e você nem sabe do que eu estou falando) eu cobri a minha cara com a blusa porque eu estava sofrendo de felicidade-lacrimejante em excesso, e que eu estava sofrendo de felicidade-lacrimejante em excesso porque você me disse uma coisa que

(eu-sou-louco-por-você)

me deixou assim-assim mole por dentro.
Estou dizendo que eu lembro de ter me ensinado que chicletes ficam 10 anos no organismo e que isso me lembra que até hoje não faço idéia de onde foi parar o meu único chiclete do dia 12 do mês 2, mas que eu devo mesmo ter enfiado no bolso direito da minha calça jeans sem perceber enquanto pedia desculpas por ter te atacado, estou dizendo que eu amei os seus livros, as suas músicas, as suas coisas de couro, os seus brincos – eu mordi os seus brincos –, a pequena cova na bochecha esquerda, o contorno das costas e também

(as-coisas-nem-sempre-são-como-a-gente-quer)

muitas outras coisas que eu nunca contei.
Estou dizendo que você me fez atravessar a estrada a caminho de casa só pra sentir um vento quase apoteótico bagunçando o meu cabelo e batendo no meu corpo e que eu permaneci impassível, mas que foi mesmo muito divertido, e estou dizendo que muitas vezes eu quis te dizer ‘eu-também’ mas não consegui (e ah, me desculpe mesmo por isso), e que todas as vezes que eu me embaracei e troquei sílabas palavras e pensamentos aconteceram só porque eu tenho isso de travar o cérebro perto de alguém que

(já dizia o mestre “ah como você me dói vezenquando")

me deixa assim-assim descomposta feito você, ainda que tudo o que você tenha para me dizer agora seja apenas:

(eu preciso ir embora.)

Estou dizendo também que é melhor ir parando por aqui - tão importante quanto dizer é parar de dizer. Assim, com um ponto final abrupto desses que encerram uma linha de raciocínio (ainda que sem muito sentido) antes que fique mesmo muito difícil de separar o coerente do sentimental.

sexta-feira, 5 de agosto de 2011

Nem

(Os devidos créditos: 1) http://migre.me/5r0ig e 2) http://migre.me/5r0iW)

Ai! Que tudo ficou amargo!
Não tem mais adaga nem ipê, não tem mais dinheiro nem paixão, não tem mais descanso e só resta desejo, só tem não, só tem o nada e também a falta, não sobrou o voo e não tem nem chão, não tem mais alma, nem salto, nem ribalta, nem amplidão.
E agora, você?
Não se tem família nem malucos, o romântico se perdeu com o burguês, nunca conheci Copacabana nem a Bahia, nem o calado ou o garanhão, não tem mais canção, não sobrou não, nem sim ou talvez, razão nunca teve, não tem mais raposa nem amigo, não tem mais cowboy, não tem mais chinês.
E agora, você?
Não tem mais espírito nem ação, nem ternura ou tesão, não tem verso livre, não tem decassílabo, anjo nunca teve, mulher não tem mais, prazer também não, só dor, mas tortura não tem mais, nem mansidão nem lar ou revolução, nem bandido, nem herói.
E agora, você?
Discurso não tem, nem televisão, romance não tem, sobrou rock’n roll, não tem mais lua nem o sol, pra pura natura o fogaréu, acabou o mistério, acabou a luz, não tem mais canto nem mundo inteiro, nem quaresma ou fevereiro, não tem coqueiro só tem solidão.
E agora, você?
Você que tem nome, você que me zomba, você que me testa, você que não me escreve, você que não ama, você que me cala, e agora, você?
E tudo vibrou, e tudo trocou, e tudo que fui e tudo que foi e tudo.
Tudo amargou.