sexta-feira, 23 de setembro de 2011

Sobre Uma Flor


Hoje é dia 23 de setembro.
Hoje é dia 23 de setembro e eu olhei pela porta aberta da sala as palmeiras, de longe iluminadas, como um viciado em heroína olha para as árvores que rodeiam a sua clínica de reabilitação. E de fato acabei parando em uma.
Hoje o meu único sentimento por alguém que um dia eu guardei uma dose de “amor” – eca, como pude? é tão difícil dizer essa palavra agora - é nojo. É a minha bile se debatendo no fundo do meu estômago, quase chegando a minha garganta com o desejo de cuspir toda a sopa mal-feita que se come em uma clínica. É uma feroz vontade de cortar todo o corpo em pequenos e perfeitamente alinhados pedaços de carne de 1 cm. Em cubinhos, como os temperos de cozinha. Como um perfeito e asseado serial killer.
E é por esse tipo de desejo que eu não me surpreendo por estar aqui hoje.
Hoje é dia 23 de setembro e eu matei uma formiga para aliviá-la do sofrimento de estar caminhando machucada.
Hoje uma flor brotou no deserto e eu também a matei.
Hoje, e mais especificamente agora, alguém perto do lugar onde estou – a minha clínica de reabilitação imaginária – está ouvindo I Miss You e penso que isso é absurdamente irônico.
Hoje eu arranquei do meu dedo uma lembrança (que tem formato de dois corações grudados - e essa imagem é tão absurdamente sádica, Deus! – aliás Deus, se é que você existe mesmo, desculpe-me por usar seu nome em vão, mas sou assim mesmo).
Hoje eu quis dizer to mommy (sim, “to mommy” assim como um bebê no escuro clamando por leite, e pouco me importa o que vão pensar) que esteve certa na maioria das vezes e que eu sou terrivelmente estúpida (afinal, isso aqui não é mesmo uma clínica de reabilitação? pessoas emocionalmente inteligentes não vão à reabilitação).
Hoje, como nunca, eu entendi Holden Caufield: “As pessoas sempre pensam que algo é inteiramente verdade. As pessoas nunca notam nada. As pessoas nunca acreditam em você. As pessoas sempre aplaudem as coisas erradas. As pessoas nunca dão as suas mensagens para ninguém.”
Hoje eu expliquei coisas pensando em como eu tinha arrancado aquela flor do deserto; tentei fazer poemas, mas estava seca porque matei a flor; verti um bom tanto de lágrimas em uma blusa azul porque eu matei aquela única flor no deserto; respondi questões inúteis com respostas inúteis para receber uma avaliação inútil sem prestar atenção no que escrevia porque só pensava na flor; eu não paro de pensar que eu deveria ter o mesmo destino que ela para que a justiça fosse feita; eu a matei para só depois descobrir que a flor no meio do deserto – quase um oásis de ternura em meio àqueles montes de cactos secos e mentirosos - era a única flor que havia conseguido brotar em todos os desertos do mundo e que ela havia decidido brotar justo ali, no meu deserto. Eu a matara e o deserto é agora apenas areia – fria, porque é madrugada – e eu – presa aqui, nessa clínica de reabilitação para gente viciada em errar – desejando que aquela flor volte a brotar, assim, em segredo, como fora desde o começo, se recompondo meio molenga, se firmando outra vez, porque – ai, isso dói mesmo, isso dói muito, eu deveria ter dito o quanto eu amava aquela flor logo quando a encontrei há um tempo e a achei esplêndida, nada disso teria acontecido, absolutamente nada; como o Pequeno Príncipe, eu colocaria uma redoma para que a flor não sentisse frio nem fosse atacada por animais, eu cuidaria dela como se ela também me amasse e nós poderíamos ter sido – como é mesmo a palavra? ah, sim – felizes.
Hoje é 23 de setembro e eu descreio tanto nessa palavra - “felizes” – que acredito que preciso soletrá-la em voz alta para que eu possa lembrar o seu significado. Ah, sim.
F – E – L – I – Z – E – S.
É assim, não é?
É, talvez seja assim.
Eu não sei porque eu matei a flor.
E agora eu fico com esse gosto na boca, de nojo do outro, de nojo de mim, de saudades, de tristeza, de bile, de sopa mal-feita, de palmeira iluminada ao longe, de clínica, de coisa dolorida dolorida dolorida, de arrependimento, um gosto de vontade imensa imensa imensa de ressuscitar a flor e cuidar dela dessa vez. Um gosto assim, de flor. Branca. Que brotou no deserto.

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